Conto: Negócio entre Monstros



Olá leitores! Trazendo aqui hoje, mais um conto assustador da nossa querida Valkna. Um conto bem bolado e que com toda certeza, ainda recebera uma continuação, ou talvez, uma grande obra definitiva.

- Um barão.
- Quanto?!
- Brincadeira, monstro. Cem mangos.

Aquele humano desprezível não tinha medo da morte. Só podia ser isso.

- Cem pila cada bolsa. AB puro. Limpinho.
- Cinquenta.
- Ah, vamos lá irmão.
- Não sou seu irmão.
- Sim, claro, é só força de expressão. Cem reais é um bom preço e...
 -Cinquenta.
- Ok.

Se ele não fosse tão miserável até daria um lanchinho. Essa barganha já tinha ficado chata, então, basta usar o velho poder vampírico de persuasão para chegar ao valor desejado.

Você deve estar se perguntando por que um vampiro antigo como eu estaria comprando bolsas de sangue de um infeliz funcionário de hospital. Muito simples: facilidade.

Depois da guerra veio tudo aquilo que costuma vir depois de todas as guerras: fome, doenças, escassez, desespero. Resultou em tantas mortes quantas ocorreram durante o conflito. Meu único interesse na pífia sociedade humana era o alimento, logo, já adianto que desconheço os reais motivos da guerra em questão.

Uma nação atacou a outra, houve bombas, soldados, fugas, cidades inteiras dizimadas. Eu já tinha visto isso inúmeras vezes. Em cada país que visito, ao longo dos séculos, sempre ocorre, mais cedo ou mais tarde algum tipo de revolução ou combate.

Já sei que é o momento de hibernar, esperar toda a confusão passar, e, depois que os humanos limparem parcialmente sua própria sujeira, é só voltar a ativa.

Mas desta última vez, foi muito pior. Os humanos conseguiram ultrapassar todos os limites da burrice. Quase metade da população mundial morreu. Isso reduziu nosso rebanho de caça consideravelmente. Ainda havia o suficiente para os da minha espécie, mas logo nos deparamos com mais um problema. Dos que sobraram, uma grande parcela estava contaminada pela arma biológica mais terrível já inventada pelos humanos. Um micro-organismo modificado, que seguia pela corrente sanguínea e destruía o músculo cardíaco rapidamente. Muito eficaz do ponto de vista bélico.

Porém, muitos humanos se mostraram resistentes a esse micro-organismo, passando de vítimas a hospedeiros. Eles não desenvolvem a doença. Mas podem transmiti-la através do sangue.
Não que eu seja atingido por vírus, ou qualquer outro tipo de doença. Não temo a morte. Já a encarei e venci há muito tempo. Antes de todas as guerras. Mas quando se tem o tempo de vida, ou não-vida se preferir, que eu tenho, você se torna cada vez mais seletivo. Você descobre que tem coisas que faz pra sobreviver, e coisas que faz porque são extremamente prazerosas. Sangue AB é um bom exemplo.

O sangue humano é muito bem vindo. Sempre. Não precisa ser de uma virgem. Aliás, esse está bem difícil de conseguir. Mas ainda lembro do gosto. Por hora, o AB, com seu sabor delicado, é muito viável. É mais fácil comprá-lo de um pobre coitado, que se contenta com qualquer miséria que garantirá seu jantar de hoje, do que sair à caça de um AB que não esteja contaminado. Me recuso a consumir sangue sujo. Atingi um patamar que me obriga a buscar o melhor, sempre.

Meu fornecedor, gosto de chamá-lo assim, já está a uma certa distância. Ainda leva a cédula de cinquenta reais na mão. Enquanto me delicio com a iguaria que ele me trouxe, acompanho seu trajeto que invariavelmente termina numa discreta casa no fim da rua sem saída, mais a frente.

Devo admitir que a raça humana inferior conseguiu reconstruir suas cidades com uma certa rapidez. Como são bem menos pessoas do que antes, ficou mais fácil ordenar todo o caos que se instalou. Melhor para mim. Não queria permanecer em um sono torporoso por muito tempo.

Uma mulher vestida com duas pequenas peças de roupa vem recebe-lo na porta. Ela tem uma certa dificuldade em se equilibrar nos sapatos. Em quase três mil anos, acredito que nunca vi saltos tão altos. Ele entra levado por ela. De mãos dadas. Que bela cena. Patético.

Ele não sabe que sempre o acompanho depois de fechado negócio. Outra coisas que ele também não sabe, é que já presenciei várias vezes, ofuscado na escuridão, a forma como ele consegue a mercadoria que entrega para mim.

Seu cinismo ao comunicar a família do paciente que todos os esforços foram esgotados, e que, infelizmente, a pessoa perdeu muito sangue, e não sobreviveu. Que aquela enfermaria é a mais bem equipada do sul do país, mas mesmo assim, não foi possível salvá-lo. Que o choque hipovolêmico foi muito repentino.

Fico me preguntando quem realmente é o monstro.

(Valkna).
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Autor Jorge Eduardo

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